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Artigo

A pirataria na internet e a privatização da cultura

O mundo evoluiu, globalizou, mas a arte ainda não é globalizada...

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18/02/2019 19h43Atualizado há 5 meses
Por: Cláudio Bertode
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O mundo evoluiu, globalizou, mas a arte ainda não é globalizada. Um ingresso de cinema é muito caro, o valor pago para uma apresentação musical ainda não é incessível para muitos pais de família. Embora, as gravadoras, afirmem que sofram um grande prejuízo na casa dos bilhões ao ano, não acreditamos ser coerente esse raciocínio. Mesmo que se consiga derrubar todos os sites de compartilhamento de arquivos da rede mundial de computadores, mesmo assim, as gravadoras não irão ter aumento em termos de lucro que supostamente perdem anualmente.

Para início de conversa, muitas das celebridades agenciadas pelas grandes gravadoras, primeiro fizeram um trabalho de formiguinha, no youtube, nos sites de compartilhamento de música, mendigaram muitos likes nas redes sociais. Alguns fazem ações dignas de “pena”, quase imploram para que a gente ouça, que ajude a compartilhar, que a gente grave no pendrive e toquemos para nossos amigos, para nossas famílias. Bem, depois que já possuem um número bom de fãs, daí se entregam ao tino comercial das gravadoras, se apresentam apenas em lugares com ingressos muito caros, em uma verdadeira privatização do que começou com uma manifestação cultural e social. Esse artista, induzido pela lógica do empresário, esquece que ele e seu público mais fiel vieram do mesmo lugar. Começam a esbravejar contra quem, acaso compartilhar qualquer produto seu. É uma ação paradoxal, precisam dos nerds e garimpeiros da internet para ficarem conhecidos, depois do reconhecimento, ao invés de agradecimento aos fãs que tanto fizeram para alavancar seu trabalho, dão em troca repúdio e menosprezo.

Ainda poderíamos citar o fato de que nem todos os cidadãos conseguem adquirir produtos artísticos originais. A privatização do acesso à cultura, faz com que o produto final saia muito acima da capacidade da maioria dos bolsos brasileiros. A sede comercial das gravadoras e produtoras, o ambiente em que esses produtos são comercializados, faz com que cheguem muito caros para o consumidor final. A ida em uma apresentação musical, não fica apenas no preço do ingresso, lá tem o ambiente que incentiva o consumo de bebidas, lanches, suvenires, são muitas as formas de tirar o dinheiro de uma pessoa dentro de um evento artístico. Do mesmo modo, ir ao cinema, não se resume ao preço do ingresso, que por si já é caro, tem toda uma atmosfera que foi criada para tirar o máximo dos espectadores, é a pipoca, é o refrigerante, é a mensagem implícita de que aquele ambiente merece uma boa companhia. NO final, o que era para ser um deleite artístico, se torna algo dispendioso, olhando por esse aspecto, é fácil compreender que nem todo brasileiro tem dinheiro suficiente para bancar várias idas ao cinema. Não dá para tirar o de comer, de comprar coisas para os filhos e investir em pomposos eventos criados para ricos bolsos.

Assim, não é nada lógico o argumento das gravadoras e produtoras a respeito do suposto prejuízo, claro que o trabalho da Polícia Federal de investigar, combater, indiciar, é justificável, uma vez que o que está sendo protegido é o direito intelectual. No entanto, é preciso ficar claro para os cidadãos que não é um trabalho para proteger o lucro desses ricos empresários que se abastam cada vez mais pela exploração do trabalho intelectual dos artistas que nos rodeiam, lucram afastando a arte da sociedade e privatizando esta mesma arte, criando um ambiente para os poucos que podem pagar. Sem a chamada pirataria, muitos artistas que nascem em comunidades pobres, nunca ganhariam lume, sem a pirataria as gravadoras, além de não atingirem esse lucro que elas afirmam perder, devido aos compartilhamentos, ainda teriam de gastar muito mais com campanhas publicitárias. É preciso que esses empresários revejam suas práticas, precisam entender que se o preço desses produtos artísticos baixarem, não haverá o porquê da pirataria, se seus preços baixarem, muito mais pessoas vão poder comprar. Quando o preço é acessível, o cidadão faz questão de comprar o original de seu artista preferido, qual o fanático por filmes que deixaria de ir a um cinema para ver uma cópia com áudio e imagem desfocadas? Sempre tem um caminho mais fácil do que o da repressão, é preciso um amplo debate para chegarmos a um ambiente em que se respeite o direito autoral do artista e ainda possa a sociedade ter seu direito à cultura garantido. Do jeito que está, o que vemos é a cultura ser privatizada cada dia mais.

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